“Terça, 4
Passando por Newark ao meio-dia, pude ver a ponte de Nova York, já escurecida pela poeira no ar, na noite criada por uma tempestade. Poderia ser o fim do mundo.
Acho que o mundo vai acabar em preto e branco, igual a um filme antigo. (Cabelo preto como carvão, amor, pele branca como a neve.) Talvez, enquanto haja cores, consigamos sobreviver. (Lábios vermelhos como sangue, procuro sempre me lembrar.)
Cheguei a Boston de tardezinha. Eu me pego procurando-a em espelhos e reflexos. Em certos dias, me lembro de quando os brancos chegaram a esta terra, e quando os pretos cambalearam no porto, acorrentados. Eu me lembro de quando os vermelhos andavam por esta terra, quando ela era mais jovem.
Eu me lembro de quando a terra estava sozinha.
- Como alguém pode vender a própria mãe? – Foi isso que as primeiras pessoas disseram, quando lhes pediram que vendessem a terra na qual pisavam.
Quarta, 5
Ela falou comigo na noite passada, Era ela, tenho certeza. Passei por um telefone público na rua em Metairie, LA. Ele tocou. Peguei o fone.
- Você está bem? – uma voz perguntou.
- Quem é? – eu quis saber. – Talvez você tenha discados o número errado.
Passando por Newark ao meio-dia, pude ver a ponte de Nova York, já escurecida pela poeira no ar, na noite criada por uma tempestade. Poderia ser o fim do mundo.
Acho que o mundo vai acabar em preto e branco, igual a um filme antigo. (Cabelo preto como carvão, amor, pele branca como a neve.) Talvez, enquanto haja cores, consigamos sobreviver. (Lábios vermelhos como sangue, procuro sempre me lembrar.)
Cheguei a Boston de tardezinha. Eu me pego procurando-a em espelhos e reflexos. Em certos dias, me lembro de quando os brancos chegaram a esta terra, e quando os pretos cambalearam no porto, acorrentados. Eu me lembro de quando os vermelhos andavam por esta terra, quando ela era mais jovem.
Eu me lembro de quando a terra estava sozinha.
- Como alguém pode vender a própria mãe? – Foi isso que as primeiras pessoas disseram, quando lhes pediram que vendessem a terra na qual pisavam.
Quarta, 5
Ela falou comigo na noite passada, Era ela, tenho certeza. Passei por um telefone público na rua em Metairie, LA. Ele tocou. Peguei o fone.
- Você está bem? – uma voz perguntou.
- Quem é? – eu quis saber. – Talvez você tenha discados o número errado.
- Talvez – ela disse.
– Mas você está bem?
- Não sei – respondi.
- Não sei – respondi.
- Saiba que você é
ama – ela disse. E eu sabia que só podia ser ela. Queria lhe dizer que também a
amava, mas ela já tinha desligado. Se é que era ela. Só falou por um momento.
Talvez tenha sido engano, mas acho que não foi.
Estou tão perto agora. Tenho um cartão-postal de um sem-teto na calçada com um cobertor cheio de coisas e escrevo Lembre-se no cartão, com batom, para que eu não me esqueça mais, mas o vento vem e o leva embora, e acho que, por enquanto, vou continuar andando.”
Páginas de um Diário Encontrado numa Caixa de Sapatos Abandonada num Ônibus da Greyhound em Algum Lugar entre Tulsa, Oklahoma, e Louisville, Kentucky - Neil Gaiman (Coisas frágeis 2)
Estou tão perto agora. Tenho um cartão-postal de um sem-teto na calçada com um cobertor cheio de coisas e escrevo Lembre-se no cartão, com batom, para que eu não me esqueça mais, mas o vento vem e o leva embora, e acho que, por enquanto, vou continuar andando.”
Páginas de um Diário Encontrado numa Caixa de Sapatos Abandonada num Ônibus da Greyhound em Algum Lugar entre Tulsa, Oklahoma, e Louisville, Kentucky - Neil Gaiman (Coisas frágeis 2)